A análise de Wanderley Guilherme dos Santos sobre o que está acontecendo no país é muito boa, mas incompleta. A informação que falta é que não apenas políticas sociais específicas de um governo estarão sendo assaltadas e destruídas, mas também direitos consolidados há décadas, tanto por Leis, quanto pela própria Constituição.
O discurso de Roberto Requião foi muito claro nesse sentido.
As mídias alternativas têm sido muito claras nesse sentido.
Mas a população brasileira segue com a cabeça baixa, aceitando passivamente a imposição de interesses que não são seus.
E o Brasil segue em sua sina de golpes e imposição de políticas que apenas atendem a interesses externos e de uns poucos brasileiros.
Enquanto isso uma parte significativa da população brasileira aplaude e comemora a queda que haverá em sua qualidade de vida, em prol de uma casta que não precisa melhorar em nada.
Segundo Wanderley Guilherme dos Santos, há um trabalho junto
ao subconsciente da sociedade para mostrar o que vem sendo feito desde
2002 como algo maligno.
Marco Weissheimer - Sul 21
“O governo de Michel Temer dá as
primeiras passadas, acelerando para o grande salto para trás e a grande
queima de estoques. A massa assalariada brasileira está sendo vendida a
preços de saldo, com as liquidações iniciais dos programas educativos e
sociais. O patrimônio de recursos materiais, como antes, será oferecido
como xepa. A repressão à divergência não será tímida. Não há nada a
esperar”.
Esse é o resumo da obra que será exibida no Brasil nos
próximos meses, talvez anos, na avaliação do cientista político
Wanderley Guilherme dos Santos, professor aposentado de Teoria Política
da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador sênior do
Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-UERJ). Em um artigo
intitulado
“O grande salto para trás de Michel Temer”,
publicado em seu blog “Segunda Opinião”, o cientista político prevê
dias sombrios para o país e aponta algumas características do bloco que
apoia Temer e que pretende implantar uma nova agenda política e
econômica no país, sem ser referendada pelo voto popular, com a
confirmação da derrubada da presidenta Dilma Rousseff.
Em entrevista ao
Sul21,
Wanderley Guilherme dos Santos fala sobre essa agenda, destacando o seu
caráter profundamente antinacional. Para ele, o movimento golpista
pretende recolocar o Brasil no fluxo normal das relações do capitalismo
que havia sido interrompido com a eleição de Lula em 2002. “O que vai
acontecer agora, e já começou a acontecer, como tem ocorrido em várias
democracias sociais no mundo inteiro, uma redefinição programática
drástico dos contratos de solidariedade social com uma hegemonia
desabrida da lógica do interesse do capital”, assinala. Para tanto,
acrescenta, a esquerda foi expulsa do jogo político legal por algum
tempo. “Eles não deixarão Lula ganhar a eleição em 2018 em hipótese
alguma. Não sei como vão fazer, mas não deixarão”, diz, advertindo que a
tentativa de prisão do ex-presidente Lula é uma possibilidade real
neste cenário.
Sul21: Como você definiria a atual
situação política do país e, mais especificamente, o que está
acontecendo no Senado nos últimos dias, com o julgamento do impeachment
da presidenta Dilma Rousseff?
Wanderley Guilherme dos Santos: Eu
não tenho acompanhado o Senado e nem o Supremo Tribunal Federal porque,
já há algum tempo, tenho a convicção de que está tudo essencialmente
resolvido. É uma peça cuja primeira montagem, para a minha
sensibilidade, teve alguma emoção. Agora, virou algo mecânico. Por isso
não estou acompanhando o que ocorre no Senado. Não vai daí nenhuma
depreciação das pessoas. Elas estão cumprindo o protocolo, mas, no
fundo, todos sabem que está resolvido.
Sul21:
Com a confirmação do afastamento de Dilma, quais podem ser as repercussões políticas e sociais no país?
WGS: Acho que ocorrerão desdobramentos e aprofundamentos do
telos,
da finalidade deste movimento que pretende recolocar o Brasil no fluxo
normal das relações do capitalismo que havia sido interrompido com a
eleição de Lula em 2002. A inserção do Brasil no sistema capitalista
evoluiu muito durante os governos de Fernando Henrique Cardoso, quando
foram construídos laços explícitos com o modelo internacional.
Previamente a isso, havia uma indefinição sobre o rumo que o país iria
tomar. Mesmo durante o período militar, havia uma disputa permanente
entre os nacionalistas e os mais, digamos cosmopolitas. Isso foi
resolvido, primeiro, com a vitória de Collor e, depois, com a de
Fernando Henrique, quando tivemos oito anos de ajustamento da dinâmica
brasileira ao modelo capitalista internacional. Isso foi interrompido em
2002.
O que vai acontecer agora, e já começou a acontecer, como
tem ocorrido em várias democracias sociais no mundo inteiro, uma
redefinição programática drástico dos contratos de solidariedade social
com uma hegemonia desabrida da lógica do interesse do capital. Esse
processo já está em curso.
“Os
assalariados, de modo geral, com a ameaça de desemprego, estão muito
pouco dispostos a participar de manifestações com pautas universais,
generalizantes. Só farão isso por questões específicas”. (Foto:
Guilherme Santos/Sul21)
Sul21: Na
sua opinião, pode ocorrer uma reação na sociedade a esse processo,
especialmente entre os setores que devem ser mais atingidos por essa
redefinição programática? Há uma aparente calmaria na sociedade hoje,
considerando a gravidade de tudo o que está acontecendo. O que essa
calmaria expressa? Apatia? Indiferença?
WGS: Acredito
que temos aí uma composição de percepções. Em primeiro lugar, há o
reconhecimento da falta de recursos. Os assalariados, de modo geral, com
a ameaça de desemprego, estão muito pouco dispostos a participar de
manifestações com pautas universais, generalizantes. Só farão isso por
questões específicas. Essa postura obedece a razões materiais
compreensíveis. Em segundo lugar, por uma avaliação, na minha opinião
bastante sensata também, de que esse esquema de redefinição programática
e de reajustamento reacionário é muito forte e pouco vulnerável a
pressões externas. Ele tem algumas instabilidades, como essa briga agora
entre Gilmar Mendes e o Ministério Público Federal, mas elas não
transbordarão para uma associação com quem está de fora. Assim, acredito
que essa aparente apatia não é, na verdade, uma apatia, mas sim uma
avaliação bastante pessimista, porém racional.
Sul21: Em que medida a Constituição de 1988 está sendo afetada pelo que está acontecendo agora no Brasil?
WGS:
A Constituição, propriamente, não está sendo atingida. O texto da
Constituição consagra uma série de votos de boa vontade. O que
aconteceu, de 2002 até aqui, foi uma tradução desses votos
constitucionais em políticas específicas sérias e sistemáticas. Como
essas intervenções sociais não foram constitucionalizadas, como ocorreu,
por exemplo, com a Consolidação das Leis do Trabalho, elas ficaram
muito vulneráveis a mudanças ministeriais e de governo. Então, o que
está ocorrendo agora é um desmanche das políticas sociais construídas a
partir de 2002 e a instalação de uma forma diferente de ler os votos
constitucionais que não são específicos, mas sim declarações de
intenções. O que está sendo atingido é a gramática que traduzia essas
declarações de intenções em políticas sociais específicas.
Sul21: Qual
é, na sua avaliação, a capacidade do PT e da esquerda brasileira de um
modo geral, de resistir a esse processo e de enfrentar o período que se
abre agora na história do país?
WGS: Há um trabalho
que vem sendo realizado há alguns anos junto ao subconsciente da
sociedade para cultivar a impressão de que tudo o que vinha sendo feito
desde 2002 era algo paliativo, populista e maligno para comprar o apoio
das classes mais desfavorecidas. Foram anos de condicionamento da
subjetividade nacional e grande parte dela ficou bastante hesitante no
que pensar diante de uma lava jato. Não obstante a execução efetiva dos
procedimentos legais que até agora condenaram empresários, burocratas,
marqueteiros e alguns políticos, o único grande nome do PT condenado
neste processo é o Vaccari (João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do
partido).
“Desde
o início da Lava Jato, os vazamentos, delações, declarações são sempre
em relação ao PT. Isso causou uma devastação”. (Fabio Rodrigues
Pozzebom/Agência Brasil)
Desde
o início da Lava Jato, os vazamentos, delações, declarações são sempre
em relação ao PT. Por isso não cessa a Lava Jato. Toda semana tem uma
ameaça nova sobre a prisão de fulano ou de sicrano. E não acontece. Não
acontece porque não tem base e as coisas não colam. Há alguns meses, o
Lula seria preso por causa do sítio em Atibaia ou por um apartamento no
Guarujá. Isso era martelado diariamente como se fosse verdadeiro e
suficiente para tornar alguém incomunicável. A Lava Jato colheu os
frutos desses 13 anos de cultivo de uma subjetividade disposta a aceitar
determinadas coisas. E a devastação produzida por isso foi muito
grande. A imensa maioria das forças de esquerda não tem nada a ver com o
número de pessoas denunciadas e condenadas pela Lava Jato. Há uma
discrepância absoluta aí e ninguém está se dando conta disso.
Há
dois processos em curso. Há um processo teatral e um processo real. Os
personagens reais estão lá na lista de denunciados e sentenciados pela
Lava Jato, da qual não constam políticos do PT, com exceção de Vaccari e
Delcídio, que era um recém-chegado ao partido. A Lava Jato continua
produzindo essa devastação na esquerda. Então, é natural que o
eleitorado de esquerda esteja, não digo intimidado, mas aguardando os
acontecimentos, pois foi colocado sobre seus representantes um véu
generalizado de suspeição, o que faz com que ninguém se arrisque a por a
mão no fogo por ninguém. A situação de meio paralisia que vemos hoje é
uma situação de intimidação. Tudo contribui para um curto e médio prazo
não muito róseo para a esquerda brasileira.
Sul21: Você acredita que a Lava Jato, uma vez confirmado o afastamento da presidenta Dilma, tende a terminar?
WGS:
Não. Pode até ser que eles tenham pensado nisso em algum momento do
processo, mas acho que tomaram gosto pela coisa. É um poder que, agora, o
Gilmar Mendes identificou. É um poder excepcional esse de ter
informações sigilosas sobre as pessoas, de saber quem faz o quê, em um
contexto em que acusação e difamação se confundem. É um poder tirânico,
aparentemente dentro da lei. Eu duvido que isso termine tão cedo.
Sul21: Em
que medida esse bloco que está apoiando Temer e a derrubada da Dilma é
um bloco coeso e sólido, considerando especialmente as relações entre
PMDB e PSDB?
WGS: Pode haver algumas rusgas internas,
mas acho que o bloco reacionário é sólido. A esquerda foi expulsa do
jogo político legal por algum tempo. Lamento, mas eu leio o que está
escrito. Posso estar lendo errado, mas tento ler o que está escrito.
Sul21: Como
avalia a possibilidade do movimento sindical e dos movimentos sociais
resistirem à agenda de políticas defendidas pelo bloco político e social
de Temer, que inclui propostas como a flexibilização da CLT e a
precarização de direitos?
WGS: Os movimentos sociais
podem resistir um pouco, mas dentro do sistema político legal atual, lá
entre eles, a situação não é tão fácil assim. Nem todos são reacionários
de alfa a ômega. Há representantes dentro do Legislativo e da
burocracia que tem interesses a defender e estão envolvidos com uma
série de políticas. Então, acho que não será tão fácil para eles e não
cumprirão 100 por cento do que gostariam os mais radicais deles, mas
isso por conta de resistências dentro do próprio bloco deles. Esse bloco
é muito sólido no seu veto à esquerda. O consenso básico deles é:
esquerda fora. Esse é o denominador comum que os unifica.
“Em
certo sentido, o golpe atual é pior que o de 64, pois tem um
compromisso antinacional e reacionário muito mais violento”. (Foto:
Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Tudo
isso que estou dizendo não significa que nós vamos ficar olhando para
tudo isso de braços cruzados, sem fazer nada. O que estou fazendo é
procurar ver essa conjuntura com um olhar realista, inclusive para não
criar expectativas falsas. As lideranças da esquerda não podem ficar
levantando expectativas falsas que sabem que não poderão cumprir. Isso é
ruim. O que não quer dizer que vamos ficar parados. Nós ficamos parados
durante a ditadura? Não e tampouco ficaremos parados agora. Na
ditadura, não acreditávamos que, em 48 horas, iríamos derrubar os
generais. Nem por isso ficamos parados.
Em certo sentido, o
golpe atual é pior que o de 64, pois tem um compromisso antinacional e
reacionário muito mais violento que o dos militares daquela época. Estes
tinham uma seção autoritária, mas comprometida com interesses
nacionalistas. Não é o caso agora. Cerca de 90% desse bloco que apoia
Temer é profundamente antinacional. Isso não está acontecendo só aqui,
vem acontecendo pelo mundo inteiro depois da crise de 2008.
Sul21: Você vê alguma possibilidade de Lula vencer a eleição em 2018 e retornar ao governo?
WGS:
Eles não deixarão Lula ganhar essa eleição em hipótese alguma. Não sei
como vão fazer, mas não deixarão. A esquerda não ganhará a eleição em
2018 de jeito nenhum. O que não quer dizer que a gente não vá mostrar a
cara. Dependendo do andar da carruagem e se as eleições fossem livres,
hoje eu acho que eles perderiam. O governo Temer é muito ruim e está
afetando todo mundo. Se houvesse uma eleição para valer, eles perderiam.
Como é que eles vão fazer eu não sei. O compromisso que eles estão
assumindo, em nível nacional e internacional, é de tal envergadura que
eles não podem perder a eleição em 2018.
Sul21: Na sua opinião, o tema da prisão de Lula ainda é uma possibilidade?
“Eles não deixarão Lula ganhar essa eleição em hipótese alguma. Não sei como vão fazer, mas não deixarão”. (Foto: Divulgação)
WGS:
Acho que sim. Estão preparando o ambiente e o farão quando avaliarem
que isso provocará apenas alguns protestos impotentes. Há um ano, eles
não fariam, pois não daria certo. Eles não estão para brincadeira e vêm
trabalhando sistematicamente para “acostumar” a opinião pública com a
ideia da prisão de Lula. Eles vêm realizando sucessivas ameaças, às
quais reagimos, para ir criando o clima. A ideia é que, ao longo dessas
sucessivas ameaças, a nossa reação vá perdendo força na sociedade.
Sul21: Como definiria a atuação do STF neste processo? Há setores do Supremo que fazem parte orgânica desse bloco de Temer?
WGS:
Sim, fazem. A maioria do Supremo é servil. Os que não são, se acomodam e
se acovardam. Só esboçam alguma reação em coisas secundárias. Na hora
de decidir sobre temas essenciais, isso desaparece.
Sul21: Outra
instituição que vem sendo apontada como uma protagonista do golpe é a
chamada “grande mídia”. Como definiria o papel desse setor?
WGS:
É claro que também faz parte desse mesmo bloco. Não há nenhuma dúvida
quanto a isso. Esse encontro entre Legislativo, Judiciário, Supremo,
empresariado e mídia é uma circunstância que aconteceu. Não é fácil de
acontecer, mas aconteceu. Acho que nem foi o resultado de uma coisa
totalmente planejada, pois é muito difícil planejar algo dessa natureza.
Mas acontece e, quando acontece, eles têm consciência de que aconteceu.
Eles sabem o que aconteceu e, por isso, estão à vontade para cometer as
maiores barbaridades como se fossem verdades. Hoje, se alguém ligado à
esquerda entra com um habeas corpus ou algo do gênero no Supremo, eles
negarão o pedido. Pode parecer exagerado, mas é isso mesmo. O que está
acontecendo não é brincadeira. A gente esquece como isso tudo começou.
Há alguns anos, o que estamos vendo agora era algo impensável. Hoje
acontece como se fosse algo normal.
Sul21: Considerando
o bloco político social que apoia Temer hoje é possível fazer uma
comparação com aquele bloco que apoiou o golpe de 64?
WGS:
Não, é uma realidade bem diferente. Em 64, não havia uma sociedade
organizada e diversificada como hoje. Os militares obtiveram uma maioria
conjuntural, mas depois as coisas foram ficando mais complicadas. Não
tem nada a ver com 64. Como disse, acho que o que acontece agora, em
certo sentido, é pior em função do caráter profundamente antinacional
desse bloco.