Pois é pessoal, a situação está cada vez mais pendendo em direção ao lado Oriental do conflito entre a nova e a velha ordem mundial. E quando falo de lado Oriental não falo de uma civilização, porque temos várias civilizações no lado Oriental do planeta. Rússia, China, Irã, Coreia, e outras civilizações menores compõem o chamado bloco Oriental, e lideram um bloco ainda mais heterogêneo ao qual chamam Sul Global.
E quando falamos de Ocidente também não falamos de uma civilização única. Apesar de terem agido quase que como um bloco único em muitas oportunidades desde o final da Segunda Grande Guerra, fato é que suas classes dominantes pensam de forma parecida, e por isso mesmo vemos fissuras consideráveis neste bloco, justamente porque há um misto de busca por hegemonia global por cada uma delas, e um nítido entendimento de que sós eles não têm condições de exercer essa hegemonia. Essa dualidade acaba sendo antagônica em muitas oportunidades, como agora, em que eles buscam se impor uns aos outros.
Até agora a diferença entre os dois blocos se dá justamente pelo fato de que no primeiro há liderança, não hegemonia, muito menos imposta por todas as formas possíveis. Há a busca de desenvolver o bem-estar e o desenvolvimento de seus povos e países, e o respeito aos outros povos ao máximo possível, nesse processo as classes dominantes acabam sendo controlados por um poder maior, que é o Estado. E essa é a diferença, porque como eu disse acima, no Ocidente as classes dominantes já não são controladas de nenhuma forma, e países e povos e Estados são simples instrumentos de realização dos interesses dessas elites e sua busca por hegemonia.
Nesse contexto vemos as guerras que se desenvolvem na linha de contato entre os dois grandes blocos, ou melhor, entre o grande bloco Ocidental e os líderes do bloco do Sul Global. E o bloco Ocidental perde em toda a linha de contato.
Essa derrota vem vários motivos, mas o principal é o deslocamento da economia Ocidental da economia real, ou seja, da produção e consumo em prol de uma economia virtual e financeirizada, baseada em serviços. Claro, serviços são parte de qualquer economia, mas eles não podem basear nenhuma economia. Os serviços são derivados justamente das oportunidades que a produção proporcionam, seja através do uso de produtos advindos do setor secundário, seja pelo desenvolvimento de novos produtos e técnicas para este setor da economia.
Neste sentido que vemos a matéria do Financial Times, e que foi bem interpretada por Frederico Krepe. Há um nítido chamado à classe dominante chinesa para que promova a financeirização de sua economia, quebrando com isso a prosperidade da nação, criando fissuras na sociedade, e aproximando assim a classe dominante chinesa das classes dominantes Ocidentais.
E não é que a classe dominante chinesas não queira e não tente se aproximar do modelo Ocidental, onde ela reinaria soberana e teria todas as forças da sociedade para satisfazer tão somente seus próprios interesses. O problema é justamente o que apontei no início; o Estado controla e se sobrepõe a essa classe dominante. O Estado não impede que ela ganhe dinheiro (e muito), mas impede que ela use esse dinheiro para dominar a sociedade, e ainda a faz trabalhar em prol de toda a sociedade. Processo semelhante ocorre em algumas outras civilizações em maior ou menor grau. A Rússia é, sem dúvida, o outro grande exemplo desse tipo de civilização.
Essa diferença é o fundamento que transformou a relação de poder no mundo. O Ocidente abandonou todo o desenvolvimento social que possibilitou sua ascensão à dominância global em prol do parasitismo social que sempre permeou parte de suas classes dominantes. A dinâmica produtiva e inovadora que possibilitou a ascensão do Ocidente à liderança global por pouco mais de 2 Séculos foi rapidamente substituída por dinâmicas de valorização virtual ou especulativa de produtos de baixa qualidade ou ainda pior, que nem mesmo são produzidos por essas sociedades. Exatamente o oposto do processo ocorrido no Oriente, onde a especulação é coibida e a valorização se dá em torno da agregação real de valor nos produtos e serviços prestados.
É isso que o Financial Times sugere ao modelo chinês de desenvolvimento: que este se torne financeirizado, que abra seu mercado imobiliário à especulação - na última estatística que vi, de final da década passada, 97% dos chineses tinham casa própria -, que abra mão de parte substancial de sua indústria e seu desenvolvimento científico-tecnológico, se tornando refém de outros países e muito mais suscetível a sanções e boicotes. O mesmo para a Rússia e outros países.
As classes dominantes Ocidentais tentam levar a doença que destruiu a pujança e o progresso de suas sociedades para as sociedades Orientais. Não é de hoje que isso acontece, mas isso se exacerbou no momento em esse processo saiu das páginas dos “Financial Times” do mundo, e se tornaram ações concretas traduzidas em boicotes, impostos de importação, tentativas de proibição de comércio entre nações, de impedir o desenvolvimento tecnológico, de interferências diretas em governos e instituições, do uso de instituições e normas internacionais deturpadas (ONU, OMC, etc.) como forma de pressão e domínio para impor seus interesses classicista.
E isso é feito desde que as sociedades Ocidentais chegaram ao domínio global. A diferença é que agora há condições para a quebra desse domínio e de resistir efetivamente aos ataques. O resultado são as guerras atuais, e no fundo nada indica que elas serão finais. Devido à mentalidade e ao domínio imposto pelas classes dominantes Ocidentais em suas sociedades, tudo indica que teremos reagrupamentos, rearmamentos, e várias guerras pelos próximos muitos anos. Espero estar errado, mas tudo indica muitos anos de problemas muito graves para os seres humanos, seja devido aos conflitos bélicos, seja pelos problemas econômicos que virão atrelados a eles, como a questão energética que está cada vez mais próxima de causar uma grande depressão mundial.