Pessoal, o evento geopolítico mais esperado no primeiro semestre desse ano era o encontro entre Donald Trump e Xi Jimping. Presidentes do EUA e da China. Sim, muito esperado pelo que poderia trazer de positivo, e ao mesmo tempo nada esperado pelo que poderia levar a uma queda nas relações entre as duas super-potências. Acabou sendo estéreo, sendo inóquo, e tentarei mostrar o porque neste post
Trump fez de tudo para chegar na China em uma posição de força, de poder, e o tentou da forma estadunidense de ser, pela força bruta. A guerra contra o Irã buscava muitos objetivos, entre eles se assenhorarem de um país chave para os BRICS, para as chamadas Novas Rotas da Seda, e para a China como um fornecedor importante de matérias-primas e serviços, e comprador de bens e outros serviços. Não conseguiu, e com isso chegou numa posição subalterna. Claro, os chineses não externaram isso de forma clara, mas o indicaram em muitos momentos, e o próprio Trump também o fez, principalmente quando perfilou sua comitiva de empresários e disse que eles eram os mais poderosos empresários do mundo e que, por favor, pediam aos chineses que aceitassem fazer negócios com eles.
Pelo lado chinês Xi Jimping colocou algumas linhas vermelhas aos estadunidenses, e essas não devem ser ultrapassadas. A principal é sobre Taiwan. O EUA deve se eximir de interferir e de vender armas aos taiwanenses. Aqui a primeira divergência, porque a resposta foi de que isso será feito de forma gradual, o que obviamente desagrada os chineses em cheio.
Mas não se limitou a isso. Ambos falaram da chamada “Armadilha de Tucídides”. Os americanos deram a entender que os chineses deveriam abrir mão do direito de seguir crescendo (como já fizeram com outros países, como Japão, Alemanha, Coreia do Sul, etc), enquanto os chineses disseram que ambos deviam se apoiar e crescerem juntos, evitando as sucessivas tentativas de impedir o desenvolvimento chinês. Falou também das tarifas, e que elas atrapalham o desenvolvimento de ambos, mas mais dos próprios estadunidenses.
E no final divergiram em praticamente tudo, porque mesmo quando concordam no geral, divergem no detalhe, e de forma muito oposta.
Estreito de Ormuz – Ambos o querem abertos, sendo que Trump o quer sem cobrança de passagem, e a China não só já o tem aberto, como não se importa com a modesta cobrança feita pelo Irã.
Irã – O EUA cobra que a China não entregue armas ao Irã, ao que a China diz que não o faz. Bem sabemos que ela já entregou muitas armas ao Irã, e agora talvez não entregue armas, mas peças de reposição e para a produção de armas, ou com duplo uso. Além dos interesses econômicos que os chineses têm no país dos persas e do acordo estratégico que os países mantêm ativo. Ou seja, os chineses não irão trair os iranianos, não irão rifar seu aliado para atender aos interesses e desejos de hegemonia de uma nação decadente.
Mudança geopolítica global – Ambos reconhecem que a ordem geopolítica global já mudou, e Xi Jimping cobra uma passagem com menos conflitos, em que o EUA se adeque e acomode na nova ordem mundial. Já o EUA diz que reconhece outras potências, mas que essas devem seguir a ordem vinda de Washington. E
Ao fim e ao cabo Trump foi tentar fazer negócios para ele e para sua oligarquia, não discutir geopolítica, já que depois da cúpula, e dadas várias declarações de membros políticos da delegação estadunidense, fica claro que eles seguem entendendo que o EUA é quem manda no mundo, ou seja, não reconhecem a nova ordem mundial.
Dos negócios, no fundo não conseguiu nada de efetivo. Trump disse que os chineses comprariam 750 aviões da Boeing, e sim, os chineses disseram que podem comprar 200 aviões da Boeing, mas dentro de determinadas condições, ou seja, nenhuma transação entre os chineses e a Boeing está garantida. O resultado foi uma queda de 4,5% das ações da empresa estadunidense.
Houve também a disposição de os chineses voltarem a comprar soja e outros produtos agrícolas do EUA. O problema é que há grande chance de o EUA ter uma enorme quebra em sua safra. Primeiro porque há falta de fertilizantes, e segundo porque o preço desses fertilizantes e outros insumos de produção dispararam, e isso devido às ações tresloucadas de seu governo.
E por último os chineses mostraram disposição em comprar petróleo do EUA, o que pode atender parte dos interesses chineses em aumentar seus estoques, e ainda vai piorar a situação acima, dos fertilizantes e preços de insumos para a produção agrícola, e também industrial. Mesmo que ganhem um pouco com a venda de petróleo, perdem em vários outros setores, talvez percam bem mais do que ganhem.
Outras áreas ofertadas por Trump para negócios, todas ligadas a alta tecnologia, como carros elétricos, chips de alta performance, telecomunicações, outras áreas da tecnologia espacial, etc. Bem, em todas essas áreas os chineses estão à frente dos estadunidenses, ou na pior das hipóteses no mesmo nível, e sempre com custo e preço mais baixo, então os chineses viram as propostas, prestaram atenção e não descartam alguns negócios, mas quem se impressionou foram os estadunidenses.
Claro, tudo isso, todas as possibilidades de negócios, tudo está condicionado à mudanças de postura dos estadunidenses. Mas parece que isso não ocorreu, porque uma das condições para embarcar no avião de volta às terras de Tio San era que nenhum equipamento chinês poderia ser levado a bordo. Ótima forma de mostrar mudança de postura e abertura a uma aproximação com o outro lado.
Por isso foi inóquo. O encontro não melhorou a relação entre os dois lados, mas também não chegou a piorar nada. Ele manteve tudo no nível em já estava, e tudo indica que seguiremos com problemas sérios no Leste Europeu e no Oriente Médio. Talvez tenhamos até mesmo alguma outra região entrando em conflito devido às ações de tentativa de manter a hegemonia que já não existe mais.