Pois é pessoal, o EUA, junto com Israel, atacou o Irã e iniciou um momento de caos no Oriente Médio. Diferente de 8 meses atrás, quando o Irã contra-atacou Israel cerca de 18 horas depois do primeiro ataque, dessa vez o contra-ataque iraniano levou menos de meia hora. Alguns fontes falam em algo entre 10 e 15 min para que o Irã lançassem seu contra-ataque. Outra mudança importante também foi a diferença entre o contra-ataque, que se concentrou apenas em Israel e em bases israelenses, e desta vez o contra-ataque foi amplo e incluiu alvos estadunidenses e israelenses por todo o Oriente Médio.
E essas diferenças são importantes para entendermos o porquê da situação estar se desenrolando desta forma, e das estranhas reações de lideranças Ocidentais. Sim, a maioria, principalmente as lideranças políticas estão com o já esperado discurso ufanista, com a já conhecida ladainha de bomba atômica do Irã, ameaçando o Irã para que se renda, e outras bobagens que repetem de forma quase automática. Mas algumas lideranças militares deixam escapar que a situação escapou completamente às projeções feitas para o desenvolvimento do conflito.
Muita coisa pode ter contribuído para essa “surpresa”, mas entre os principais fatos estão não terem escutado o próprio ex-Chefe do Estado Maior Conjunto do EUA, que avisou a Presidência do país de que um ataque desencadearia uma reação difícil de ser detida, e por isso foi demitido; de não contemplarem o fato de que o Irã aprenderia com as experiências passadas; de subestimarem as capacidades dos iranianos, e de esperar que eles se renderiam aos primeiros ataques às instalações civis.
Essa confusão começou com o bombardeio conjunto do território iraniano por EUA e Israel. O ataque atingiu algumas autoridades persas, sendo o Aiatolá Khamenei, o líder supremo do país, a principal vítima. Alguns líderes militares também pereceram no ataque.
Mas também foram atingidos alvos civis totalmente indesculpáveis, como uma escola de ensino fundamental para meninas, levando à morte de ao menos 80 meninas, e pelo menos 100 feridas. Scot Ritter fala de mais uma escola do mesmo tipo bombardeada no segundo ataque a Teerã.
Como eu disse, o contra-ataque do Irã foi amplo, e está sendo realizado de forma praticamente ininterrupta, já tendo ocasionado a destruição completa ou parcial de mais de 10 bases estadunidenses na região. Também há relatos da destruição de alvos como uma usina de dessalinização em Israel, de alojamentos de oficiais de alta patente do EUA, de escritórios de agências de espionagem estadunidenses, empresas prestadoras de serviço às forças armadas de EUA e Israel, o Porto de Haifa, edifícios e instalações de forças armadas, um navio de guerra do EUA e um de Israel, base naval em Israel, o porta-aviões Abraham Lincoln, que está em retirada, ataque direto a outros navios da frota, entre outros alvos militares, mas desta vez também há relatos de ataques a áreas civis de cidades israelenses, principalmente em Tel Aviv. Economicamente tivemos o imediato fechamento dos estreitos de Ormuz e de Bab Al-Mandab, o que inviabiliza a exportação dos hidrocarbonetos da região, e interrompe a principal rota de comércio marítimo entre Europa e Ásia, o que já começa a elevar preços dos hidrocarbonetos e logo levará ao aumento de preços de produtos.
Já os ataques de EUA e Israel têm se concentrado prioritariamente em Teerã, e além de alvos civis, atingem alguns alvos militares, no estilo que já foi utilizado antes para a mudança de regimes. Foram destruídos os prédios do quartel general da polícia, da guarda revolucionária iraniana, da sede da TV estatal e da rádio estatal do país, além de seguirem buscando a decapitação de lideres iranianos.
E como eu disse num texto de 30 de janeiro, um ataque ao Irã levaria a uma guerra regional praticamente imediata, e tinha a tendência de se espalhar além da região. Logo no primeiro dia já tínhamos mais de 10 países envolvidos no conflito, alguns envolvidos diretamente em ações bélicas, fossem ativas, fossem passivas, e alguns em apoio estratégico e material: além de EUA, Israel e Irã, também já tínhamos China e Rússia em apoio aos persas, e logo no primeiro dia foram envolvidos Bahrein, Catar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Jordânia, Iémen e Iraque. No segundo dia já tivemos a inclusão de Síria, Líbano, Turquia, Reino Unido, França, e Itália tivemos o trio europeu, Reino Unido, Alemanha e França declarando que devem se juntar a EUA e Israel contra o Irã. Além disso tudo vemos a adesão das milícias armadas regionais Hamas, Hezbolla e Houthis ao Irã, e de ISIS e Estado Islâmico a EUA e Israel.
No meio de toda essa confusão eclode uma série de protestos em capitais do Oriente Médio, com protestos contra a intervenção e presença dos EUA na região, contra Israel, em apoio ao Irã e que chega à tentativa de invasão de embaixadas estadunidenses na região, e fortes confrontos com as polícias locais.
Como eu disse, a tendência era o conflito se espalhar além do Oriente Médio, e se o conflito não for desescalado urgentemente, há a possibilidade de outras potências se alinharem aos atuais envolvidos, levando a uma guerra mundial pior do que a ocorrida nos anos 40 do Século XX, com enorme potencial de se tornar uma guerra atômica.
Trump parece ter percebido isso, e estimulado por vários bilhões de dólares já perdidos em material e equipamento, e algo em torno de 600 baixas de pessoal militar, e já no segundo dia pediu a intervenção de Omã, e algumas fontes também falam da Itália, para conseguir um armistício com o Irã. A princípio a resposta persa foi um sonoro não, mas podemos esperar a intervenção de outras potências para que haja um armistício e nos próximos dias as hostilidades cessem, apesar de isso ser apenas mais uma parte de um conflito mais amplo que já ocorre entre Ocidente e Oriente, inclui o conflito na Ucrânia e várias escaramuças na África.
E aqui quero chamar a atenção para um fato interessante. Se pegarmos os dois principais conflitos atualmente, vemos uma linha justamente onde se considera que, politicamente, Oriente e Ocidente se tocam. A Ucrânia é a terra do meio, um contato entre Oriente e Ocidente, e por onde grandes invasões ocorreram da Ásia à Europa. Já o Oriente Médio é considerado o ponto de transição ente Europa e Ásia mais ao Sul, também tendo sido região em que exércitos de ambos os lados passaram para conquistar terras de um lado ou outro. Os próprios persas chegaram à Grécia, e Alexandre o Grande chegou à Índia.
Mais uma vez os dois lados estão em choque, mas dessa vez ambos possuem armas que não acabam com o planeta, mas podem tornar a presença humana sobre ele uma coisa rara.
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