terça-feira, 24 de outubro de 2017

Rubens Casara fala sobre direita, fascismo e pós-democracia

Entrevista muito boa. Vale a pena a leitura e a reflexão sobre isso.

Para quem conhece história, governos oligarcas sempre existiram, agora ele se aperfeiçoa em plutocrata. Isso vem das políticas neoliberais, e é uma tendência observada mundo afora. No Brasil, que historicamente já é um país extremamente desigual e excludente, isso se agudiza e agiliza, fazendo com que o abismo social seja mais sensível e danoso à população, que em outras partes do planeta.

Claro, essa miséria econômica ainda é acompanhada de miséria humana, com direitos sociais e individuais sendo suprimidos através de políticas de cunho fascista.



ENTREVISTA
'Práticas fascistas são fundamentais para manutenção do modelo capitalista'
Para o juiz e doutor em Direito Rubens Casara, elementos do fascismo contribuem para formar um pensamento homogêneo que elimina a diferença, só admitida "se puder ser transformada em mercadoria"
por Glauco Faria, para a RBA publicado 03/09/2017 12h01
REPRODUÇÃO

Ato em defesa da volta dos militares ao poder: sem perspectivas fora da ordem neoliberal e desejo de destruir quem se opõem à sua lógica
São Paulo – Um Estado que retoma o ideário neoliberal e fortalece seu poder repressivo para conter parte da população "indesejável". Esse é o modelo que caracterizaria a "pós-democracia", conceito utilizado pelo juiz do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e doutor em Direito Rubens Casara.
No Brasil, esse Estado adquire características próprias, já que o país "se acostumou com o autoritarismo", segundo o jurista. "As grandes transformações brasileiras foram feitas de cima pra baixo, sem grandes rupturas, de modo a se mudar para que as coisas continuassem do jeito que estavam, a chamada lógica de Lampedusa. O brasileiro foi levado a acreditar no uso da força, da violência para resolver os mais variados problemas", aponta.
ALICE VERGUEIRO/IBCCRIM 
Casara: o brasileiro foi levado a acreditar no uso da força, da violência, para resolver os mais variados problemas
E se em outros períodos da História o fascismo foi um obstáculo para a efetivação do capitalismo, hoje ele se tornou um aliado. "Práticas fascistas são fundamentais nesse controle da população e na formatação de um pensamento homogêneo que é interessante para a sociedade de consumo, já que a diferença no contexto do Estado Pós-Democrático, para a razão neoliberal, só é admitida se puder ser transformada em mercadoria."
Na entrevista a seguir, concedida em meio à realização do 23º Seminário Internacional de Ciências Criminais, promovido pelo Ibccrim, Casara aborda o papel da cultura do ódio nesse cenário e fala sobre a aparente passividade da população diante da retirada de direitos em curso no país. "Temos que nos interpretar, saber o que queremos, verificar qual a nossa responsabilidade pelo que estamos vivendo e partir para a ação. Iniciar um processo de mudança, ou que seja apenas para caminhar. Hoje nós não estamos andando."
Se o fascismo já foi visto como obstáculo capitalismo, hoje é fundamental para a manutenção do modelo, que está em crise permanente – e se é permanente, nem merece ser chamado de crise, é o próprio funcionamento normal do sistema.
Como relacionar o conceito de pós-democracia com o panorama do Brasil hoje?
Acho que um bom caminho é pensar o Estado Pós-Democrático em oposição ao Estado Democrático de Direito, sempre caracterizado pela existência de limites rígidos ao exercício do poder, e os direitos e garantias fundamentais eram o principal deles. A Constituição estabeleceria uma série de limites intransponíveis a todos os poderes, ao econômico, ao jurisdicional, ao Executivo, pouco importa quem quisesse ultrapassá-los. O Estado Pós-Democrático seria esse em que tais limites desaparecem. Desaparecem em um movimento de aproximação entre poder econômico e poder político.
Os direitos e garantias fundamentais são vistos como obstáculos à eficiência, seja do mercado, seja a eficiência repressiva do próprio Estado, voltada à contenção da população indesejável, daqueles que não interessam à razão neoliberal e ao capital financeiro. E aí entram não só os pobres – aqueles que não dispõem de poder de consumo –, mas também os inimigos políticos. Todos aqueles considerados indesejáveis são vítimas preferenciais da atuação do sistema de justiça penal.
De uma certa forma isso é uma volta ao passado, quando não tínhamos estabelecido esses limites.
É pós-moderno no sentido em que há de novo uma confusão entre poder econômico e poder político. Se uma das marcas, senão a principal, do Estado Moderno foi a separação desses poderes, o Estado Pós-Democrático volta a reunir o poder econômico e o político em uma aproximação muito íntima desses elementos. É algo pré-kantiano na medida que a pessoa volta a ser tratada como uma mercadoria, um objeto. Aquele ganho de dignidade da pessoa humana, de que ela não poderia mais ser instrumentalizada e tratada como objeto, desaparece com a pós-democracia.
E é um retrocesso em relação à ideia de Estado Democrático de Direito e se aproxima muito das experiências nazista da Alemanha, fascista clássica da Itália, do próprio stalinismo na União Soviética, já que os direitos e garantias fundamentais deixam de exercer esse papel de obstáculo intransponível, podendo ser negociados dependendo do caso e passando a ser tratados na lógica das mercadorias.
Nesse aspecto do fascismo, como ele acaba servindo aos interesses  econômicos dominantes, como você mencionou em um artigo?
Se em determinado momento o fascismo foi visto como obstáculo aos fins do Estado capitalista, hoje tais práticas são fundamentais para a manutenção do modelo capitalista que está em crise permanente – se é permanente, nem merece ser chamado de crise, é o próprio funcionamento normal do sistema.
Práticas fascistas são fundamentais nesse controle da população e na formatação de um pensamento homogêneo que é interessante para a sociedade de consumo, já que a diferença no contexto do Estado Pós-Democrático, para a razão neoliberal, só é admitida se puder ser transformada em mercadoria. As outras diferenças podem ser eliminadas.
E nisso se dá essa relação com a cultura do ódio no atual cenário político brasileiro?
O ódio é alimentado com uma funcionalidade política e também para o mercado, é explorado economicamente de uma maneira direta e indireta. Destrói perspectivas diferentes que podem se opor à ordem neoliberal e destrói efetivamente pessoas que se opõem a essa lógica.
Nunca chegamos a construir de fato uma cultura democrática. Nunca os direitos e garantias fundamentais foram concretizados. Tivemos alguns movimentos no sentido da concretização, mas eles não chegaram a ter pleno êxito
A proliferação desse ódio conta com uma cumplicidade de parte da mídia.
É difícil generalizar, mas me parece que manifestações de ódio foram toleradas em determinado período por conta de sua funcionalidade política. O problema é que depois que o ódio é libertado e naturalizado, fica difícil voltar ao estado anterior, de sua contenção. A mídia tradicional em particular – mas não só ela, alguns veículos da mídia alternativa também –  teve um papel muito importante nessa liberação do ódio, calcado em preconceitos e que, em razão da tradição autoritária da sociedade brasileira, adquire características muito próprias.
Usando uma expressão de (Theodor W.) Adorno, que trabalhou o conceito da personalidade autoritária  após a segunda guerra mundial nos EUA, algumas características da pessoa que seria detentora da personalidade autoritária hoje se fazem presentes no Brasil com naturalidade. Não tem vergonha de assumir posições que vão desde a aposta em medidas de força para solucionar todos os problemas a uma preocupação excessiva com a sexualidade, em especial a sexualidade alheia. Estão aí os crimes com motivação sexual crescendo e aos olhos da população isso é naturalizado.
 De que forma a nossa cultura e história autoritárias moldam esse ódio?
O Brasil se acostumou com o autoritarismo. As grandes transformações brasileiras foram feitas de cima pra baixo, sem grandes rupturas, de modo a se mudar para que as coisas continuassem do jeito que estavam, a chamada lógica de Lampedusa. O brasileiro foi levado a acreditar no uso da força, da violência, para resolver os mais variados problemas. Nunca chegamos a construir de fato uma cultura democrática no Brasil. Nunca os direitos e garantias fundamentais foram concretizados. Tivemos alguns movimentos no sentido da concretização mas eles não chegaram a ter pleno êxito.
É diferente, por exemplo, a manifestação de ódio no Brasil em relação aos países que viveram o Estado de bem-estar social. O brasileiro acredita em salvadores da pátria, no uso da violência em situações em que em outros países já há um certo consenso de que ela não resolve. Temos que começar a pensar o ódio produzido e a maneira como ele se manifesta no Brasil. Exemplos externos não dão conta de explicar o que está acontecendo aqui.
Esse fenômeno brasileiro, que alguns tratam de maneira jocosa, do "pobre de direita", aquela pessoa que luta contra políticas que melhorariam a sua vida, é difícil de se encontrar em outros países. Até se encontra, mas em número muito menor do que aqui. São as particularidades da construção do próprio mito fundacional do Brasil, que é um mito autoritário. Esse autoritarismo está presente desde a nossa colonização e isso produz efeitos na percepção da violência e efeitos na produção e recepção do ódio na sociedade.
Aqui inclusive existe uma crença para alguns de que os chamados ricos, ainda que corruptos, criam empregos, diferentemente de políticos que praticam corrupção.
No Brasil, uma característica desse pensamento autoritário é a tentativa de simplificação excessiva de fenômenos que por definição são muito complexos. O próprio encobrimento da luta de classes no Brasil é um sintoma desse autoritarismo, busca-se simplificar as coisas a ponto de ocultar algo que é evidente, que é o conflito de classes em uma sociedade profundamente desigual como é a brasileira.
Nesse ponto específico da luta de classes no país, os confrontos se dão não necessariamente do ponto de vista socioeconômico, mas do cultural, não? Há segmentos que absorvem características de outros grupos e passam a defender pontos de vistas alheios.
Eminentemente cultural, e acho que não é só no Brasil. Aliás, essa pesquisa que mencionei, conduzida por Adorno e por outros pesquisadores nos EUA, mostra que uma outra característica da personalidade autoritária – e acho que se aplica no Brasil – é essa identificação com os valores da classe média. Os próprios pobres se veem como classe média, com valores eminentemente conservadores. Essa adesão leva ao reforço desse pensamento autoritário, e é outro tema importante a ser pesquisado e avaliado se quisermos levar a sério a identificação e a proposta de solução para os problemas que estamos vivendo hoje no Brasil. Um momento histórico em que há visivelmente o crescimento do pensamento autoritário no seio da população.
Tanto a direita quanto a esquerda tendem a simplificar excessivamente os problemas. Tendem a encobrir a complexidade, por exemplo, da luta de classes, na tentativa de produzir uma imagem de uma pacificação que não existe
Curioso que quando se fala em luta de classe há muitas pessoas que acusam: 'você está plantando o ódio', quando se trata de uma questão de análise.
Esse discurso de atribuir o problema ao outro que identifica a causa da desigualdade é nítido do encobrimento das questões sociais, uma característica nítida de uma sociedade autoritária como a do Brasil. E não é de hoje. Não se pode nem dizer que é um problema da esquerda ou da direita que está no poder, tanto a direita quanto a esquerda tendem a simplificar excessivamente os problemas. Tendem a encobrir a complexidade, por exemplo, da luta de classes, na tentativa de produzir uma imagem de uma pacificação que não existe.
O aumento de propostas punitivistas tramitando no Congresso Nacional, às vezes com apoio de parte da esquerda, faz parte desse contexto pós-democrático?
Nisso também não há muita diferença entre direita e esquerda, as pessoas acreditam que a punição vai produzir efeitos que em nenhum lugar do mundo produziu. Se analisarmos pesquisas sérias sobre o tema da eficácia da pena e do encarceramento, você vai ver que o que se pretende com a prisão no Brasil não foi alcançado em nenhum lugar do mundo. Hoje, e aqui vale a pena citar a frase que o Nilo Batista construiu junto com Loïc Wacquant, as prisões se tornaram planos habitacionais para a miséria. Esses indesejáveis, na pós-democracia, ou vão para as prisões, onde não vão incomodar – ou vão incomodar de outra maneira – ou são exterminados diretamente.
As principais vítimas das políticas punitivistas não raro batem palmas para os excessos da polícia, para o crescimento do Estado penal, justamente diante da incapacidade de reflexão crítica sobre o que está acontecendo, uma incapacidade que é fomentada pelas instituições e também pelos meios de comunicação de massa. Algo que visivelmente vai produzir uma piora na qualidade de vida das pessoas é aceito, recebido acriticamente pelo destinatário e acaba sendo visto como algo positivo. É assustador.
Em campanhas eleitorais já vimos pontos como a defesa de linhas repressivas como o Tolerância Zero, aplicada em Nova Iorque. Como parte da esquerda, no Brasil historicamente ligada a direitos humanos, foi por esse caminho?
Teria dúvidas em dizer que no Brasil a esquerda sempre teve uma história ligada a direitos humanos. Nem toda a esquerda. Mas se na pós-democracia tudo pode ser transformado em mercadoria, potencializando o diagnóstico que Marx já fazia, as políticas de segurança também se transformaram em mercadoria. E políticas de segurança como a de Nova Iorque foram vendidas para o Brasil como sendo uma política exitosa, que traria votos. E gera toda uma indústria ligada à segurança pública, o que interessa à razão neoliberal.
Os índices obtidos pela política de Tolerância Zero em Nova Iorque não são muito diferentes de outros estados que não adotaram a mesma política. Por que? Porque o que reduziu a criminalidade não foi a "mercadoria" da política de tolerância zero, mas o momento de esplendor econômico dos EUA. Diminuiu a criminalidade em Nova Iorque quando se aplicava a política de Tolerância Zero, mas em outros estados em que não se aplicava a criminalidade também diminuiu. No entanto, quando você vende essa ideia, isso não é dito, é ocultado. Tudo é positivo nesse tipo de mercadoria, compramos e aplicamos sem atentar para as particularidades das cidades brasileiras. Aliás, não dá para pensar em uma política de segurança pública uniforme para todo o Brasil porque os problemas da criminalidade no Rio de Janeiro são diferentes, até em termos geopolíticos, da criminalidade em São Paulo, do Amazonas, do Pará, no Recife... As cidades têm particularidades muito específicas, mas como a questão é vender uma mercadoria, elas compram o mesmo plano e começam a aplicar como se fosse uma solução mágica. E como toda solução mágica, acaba frustrando.
E diversas soluções mágicas nessa área já foram testadas, como a participação das Forças Armadas na segurança pública do Rio de Janeiro, mesmo após o fracasso da Operação Rio em 1992.
Conta-se também com a falta de memória. Isso é importante para se vender o produto, você modifica a embalagem, aumenta ou diminui o tamanho, faz um desenho mais bonito, e vende a mesma mercadoria que não funcionava e continua não funcionando como antes.
Voltando ao conceito do Estado Pós-Democrático, especificamente no Brasil, podemos delimitar algum momento em que ele se aprofundou e ganhou mais força?
O Estado Pós-Democrático não é um fenômeno muito recente ou brasileiro, está intimamente ligado à razão neoliberal no momento em que ela se torna uma nova razão de mundo. Para usar uma expressão meio fora de moda, uma ideologia que condiciona a atuação das agências estatais. E é triste perceber que mesmo governos no Brasil de orientação mais progressista tenham aderido a essa razão neoliberal. Se observarmos a ampliação de medidas autoritárias no sistema de justiça penal, por exemplo, e analisarmos o que aconteceu nos governos Lula e Dilma, podemos afirmar que houve uma plena adesão à razão neoliberal nas políticas públicas de segurança. Quando falo em razão neoliberal não falo em termos econômicos, mas como se fosse uma própria ideologia, algo que passou a condicionar as pessoas, que olham para direitos, para princípios, para a liberdade e a vida como se fossem mercadorias descartáveis. E isso é muito grave.
Talvez esse seja o principal ponto da razão neoliberal hoje no Brasil, nós perdemos a capacidade de identificar determinados valores como inegociáveis. Tudo virou negociável. Mais uma vez, é pré-kantiano, Kant dizia que havia algumas coisas que eram inegociáveis, e ele não é propriamente um pensador revolucionário.
Essa ideia, hoje, no Brasil, desapareceu. Tudo é visto dentro da lógica da negociação: admito abrir mão de um direito fundamental, de um princípio, de um valor intimamente ligado à dignidade da pessoa humana se eu tiver uma vantagem em troca.
Esse não pode ser um dos fatores que explica uma relativa passividade de parte da população em relação à retirada de direitos? Mesmo discordando, as pessoas de uma forma geral não se mobilizam.
Você é levado a acreditar que as coisas não podem ser diferentes, a esquecer a ideia de utopia e nesse momento fica paralisado diante de um estado de coisas que não necessariamente tinha que ser assim
É um excesso de informações, de notícias ruins que leva ao imobilismo. Não se consegue romper a inércia que impede de reagir. O que chocava há um mês hoje se tornou uma banalidade. Outra coisa choca mais ainda e você não conseguiu nem reagir ao que ocorreu um mês atrás. Esse excesso de notícias – ou que poderíamos chamar de mercadorias – nos leva ao imobilismo. Preocupa muito esse silêncio, essa omissão em determinados aspectos que são fundamentais para a vida em comum, para a vida minimamente digna.
Até fazendo a comparação com outros períodos, como o da redemocratização, quando já havia problemas de ordem econômica e social graves, havia também esperança, o que parece não ser o caso hoje.
Um outro sintoma da razão neoliberal é esse, o fim das grandes narrativas e o fim da esperança. Não que ela tenha desaparecido, ela está ocultada. Você é levado a acreditar que as coisas não podem ser diferentes, a esquecer a ideia de utopia e nesse momento fica paralisado diante de um estado de coisas que não necessariamente tinha que ser assim.
Talvez seja a hora de resgatar a responsabilidade individual de agir contra esse estado de coisas. Temos uma situação ruim, grave, que, a meu ver, não se enquadra mais no marco do Estado Democrático de Direito. Diante disso, a responsabilidade de cada um é tomar uma atitude. Temos que parar de acreditar que soluções mágicas mudarão esse quadro, resgatar a capacidade de identificar a situação e reagir diante dela.
E como se manifestaria essa responsabilidade individual? Por uma busca do debate de soluções coletivas, mais mecanismos de participação? Como se daria isso?
Acho que parte de um resgate da política nesses termos que você falou, novas formas de participação, de identificação de um comum pelo qual valha a pena lutar. Do resgate desse norte de que existem coisas  pelas quais vale a pena lutar, valores que não podem ser negociados. Esse é um processo coletivo, mas que também é marcadamente individual, temos que nos convencer de que existe algo pelo qual valha a pena lutar. Se partirmos da premissa de que as coisas estão dadas e que não adianta qualquer tipo de mobilização, isso leva ao fim da política em seu sentido mais belo.
Por essa ótica, é preciso preciso desvelar a esperança...
Acreditar que existe possibilidade de mudança. E acreditar nisso não leva necessariamente à mudança, mas leva ao movimento. E o movimento é fundamental, até mesmo para sobreviver. Hoje, a sensação que nos domina é de angústia, de falta, de impotência, e identificar – e aceitar até – essa angústia e fazer algo criativo a partir dela passa necessariamente por um processo que chamo de auto interpretação. Temos que nos interpretar, saber o que queremos, verificar qual a nossa responsabilidade pelo que estamos vivendo e partir para a ação. Iniciar um processo de mudança, ou que seja apenas para caminhar. Hoje nós não estamos andando.
Uma característica marcante da pós-democracia é que começamos a querer trabalhar só com positividades, é a sociedade do excesso do desempenho, onde cada um tem que produzir muito, não sobra tempo para o diálogo. E temos que conversar muito para pensar soluções para as inércias tanto coletivas quanto individuais.
E o autoritarismo pretende também impedir esse diálogo.
O ódio é produzido para você não conversar com o outro. Se não existe o diálogo, não existe o comum. Cada um pensando no seu próprio umbigo não se tem perspectiva de transformação.

sábado, 21 de outubro de 2017

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Por que a indignação?

Vamos ao que interessa: por que a indignação? Alguém esperava algo diferente de um Senado (na Càmara é todavia pior) em que 1/3 dos membros é investigado por desvios, e onde boa parte também tem rabo preso com o próprio julgado? Ingenuidade tem limites.

Ora, mas como fica então? Simples, a decisão do STF foi correta, mas há outros meios. Não houve julgamento de Aécio, mas apenas uma ação cautelar. Acontece que o STF é a instância que julga Deputados e Senadores. Basta a PR concluir as investigações, trazer provas robustas (se é que a gravação de Joesley, contas em paraísos fiscais, malas de dinheiro pegas com o primo que Aécio indicou para buscar a propina, depoimentos com provas, etc, não são suficientes), abrir o processo, e se for o caso" condena-lo. E isso para qualquer outro parlamentar. Porque aí já não é mais suspeito, mas um condenado transitado en julgado. Não haverá nada que as Casas possam fazer.

Em bom português, vamos parar de julgar casos de pipocas, e começar a agir de forma séria contra uma das misérias do país, que é o descaso com o dinheiro e a coisa pública.

Julgamentos como os do mensalão e contra membros do PT mostraram que, quando querem, os meritíssimos sabem ser céleres. Agora é democratizar essa celeridade, de forma que os processos não prescrevam.

E povo na rua para exigir isso. Não há outra forma.

A democracia e o estado de direito agradeceriam aos meritíssimos. 

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Na queda de braço entre o STF e o Senado, perdeu o Brasil

A sessão de ontem do STF foi digna de pena. Pena para o País. Como eu disse em postagem anterior, o óbvio é exatamente o que foi decidido ontem: qualquer sanção a um Congressista deve passar pela autorização da respectiva casa, assim como quem cassa mandato parlamentar é apenas a plenária da respectiva casa.

Descobriram a pólvora, o que não significa que essa excrescência da legislação brasileira seja correta, ou que caiba ao STF alterar a legislação, ou a Constituição, em nome da "moralidade", do "punirivismo" ou da "modernidade".

Mas as perguntas seguem vivas: aonde estava esse STF quando um de seus ministros deu liminar inconstitucional, tolindo a Presidenta eleita de exercer seu cargo dentro dos preceitos constitucionais e legais? Aonde está esse STF, que não anula o impeachment aplicado à Presidenta eleita, já que o mesmo cumpriu os ritos, mas não a base factual e probatória, uma vez que não há crime de responsabilidade cometido por ela? Aonde está esse STF, que permite diversos "abusos" e "erros" em processos e ações policiais contra o ex-presidente Lula, sua família, e correligionários políticos? Esse mesmo STF corre em corrigir e evitar esses mesmos "abusos" e "erros", quando os atingidos são políticos e correligionários de outros partidos, como acontece no caso de Aécio Neves.

Como eu disse em postagem anterior, fosse qual fosse o resultado disso, as duas instituições já perderam, seja por uma demonstrar fraqueza, seja a outra por demonstrar corporativismo excessivo e anti-democrático, seja porque nenhuma demonstra interesse em trabalhar pela democracia, estado de direito, ou pelo avanço do país, mas tão somente em disputar poder e previlégios.

Como eu disse no título perde também o país, que se vê tolhido de qualquer tipo de salvaguarda, já que nenhum doa três poderes está interessado em seu progresso e bem estar, limitando-se suas ações em amealhar privilégios e benesses de um Estado cada vez mais exclusivista, antidemocrático e excludente.

O País chora e desaba, num momento extremamente triste de sua história.

sábado, 7 de outubro de 2017

sábado, 30 de setembro de 2017

Kleiton & Kledir - Maria Fumaça (LP/1980)

Uma das pérolas da música brasileira dos anos 80, a dupla Kleiton & Kledir emplacou vários sucessos nacionais. Já nos anos 90 se retiraram do cenário nacional, mas seguiram ativos no Rio Grande do Sul, onde passaram a se dedicar mais à música regional gaúcha. Maria Fumaça foi um de seus primeiros sucessos. Traremos outros.


quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Retrospectiva das últimas duas semanas

Devido uma série de circunstâncias particulares, estive alguns dias sem publicar, e justamente por isso farei alguns comentários sobre temas que considero importantes, e que ocorreram nesse período.

1 - A perseguição a Lula prossegue: Mais uma vez as provas encontradas contra o ex-presidente são frágeis. O caso do apartamento alugado poderia, no máximo, ser considerado uma sonegação de impostos, mas por parte do dono do imóvel. Acontece que tanto Lula, quanto o proprietário declararam os aluguéis no Imposto de Renda, e os impostos devem ter sido devidamente recolhidos. A emissão de recibos de aluguel são uma decisão particular dos dois envolvidos no negócio de locação do imóvel, e não cabe a Justiça, ou a quem quer que seja, solicitá-los. Eles não provam propriedade do imóvel, que é o que está em jogo. Qualquer decisão de condenação baseado nisso, não passa de mais convicção sem prova.

2 - Flecha de Janot contra Teme: A segunda flecha disparada por ex-PGR Rodrigo Janot contra Temer deverá encontrar o mesmo destino da primeira, e este é a lixeira da Câmara. O processo de impeachment é um processo jurídico-político, ou seja, necessita de um crime de responsabilidade, e da vontade política do Congresso para que aconteça. O atual Congresso, junto com a Justiça, esqueceram parte dessa equação. Dilma foi deposta apenas por vontade política, já que não havia crime de responsabilidade contra a Presidenta. Temer não é  afastado e processado porque não há tal vontade política, não importando quais sejam os argumentos usados por quem quer que seja.

3 - Afastamento de Aécio Neves: Os Senadores têm razão em reclamar. A Constituíção garante aos parlamentares, que qualquer pena no exercício do mandato deve ser autorizada pelas casas. Para lá de justiça, isso está para legalidade e constitucionalidade. O que assusta não é exatamente a reação dos membros da Câmara Alta brasileira, mas o fato de nossas Leis e Constituíção ainda manterem dispositivos que criam castas acima das Leis que atingem aos reles mortais, sejam eles políticos, sejam eles juristas engajados em determinados serviços públicos. Quanto à aplicação da sentençado STF, esta segue dependendo da autorização da Casa. Caso esta autorização seja dada, Aécio começará a receber uma pálida pena. Caso não seja dada, Aécio permanecerá impune, e tanto o Senado, quanto o STF sairão mais fragilizados como institúições, ainda que o Senado comece a se prevalecer sobre o Supremo.

4 - Ciro Gomes afirma que, se eleito, anulará uma série de atos do governo golpista: Ora, não podemos esperar nada diferente de alguém que seja eleito defendendo o campo progressista e nacionalista. Na verdade, seria muito bom que Lula também dissesse o mesmo.

5- Polêmicas sobre as eleições 2018: Se é que realmente teremos eleições no próximo ano, muitas polêmicas vêm aparecendo. As maiores no campo progressista, sem dúvida, atingem o expresidente Lula e Ciro Gomes. Em sua caravana pelo Norte-Nordeste, Lula vem confraternizando com líderes políticos locais, ligados ao PMDB, e fisiológicos até a alma. Ok, uma coisa são alianças locais, com vistas a eleição de governadores, senadores e deputados, outra é uma aliança nacional, que coloque na sucessão presidencial, políticos dessa estirpe. Que o PT não repita o erro da última eleição. Pelo lado direitista vemos a intensificação e dissiminação do discurso da violência e da boçalidade por mais alguns que não apenas Bolsonaro. Já se junta a ele Dória, mas não espero que a coisa pare nos dois, já que este tipo de discurso tem tido boa recepção em parte da sociedade.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Acusações, mas sem condenações?

O ainda PGR, Rodrigo Janot, resolveu sair de sua zona de conforto, e vem acusando sucessivamente alguns líderes golpistas, entre eles Temer, Jucá, Aécio, Serra, etc. Agora inclui a abertura de investigações contra figurões do Judiciário, do MPF, e volta a carga contra Temer.

Mas tudo isso no apagar das luzes de seu mandato. Claro que é muito melhor que um de seus antecessores, que ficou vergonhosamente conhecido pela alcunha de "Engavetador Geral da República", mas sempre cabe as perguntas: "por que não fez tudo isso antes?", e "por que deixou que os golpistas se acomodassem tão confortavelmente no poder para só então agir?"

Contra a esquerda agiu sempre a tempo e a hora, colaborando decisivamente, seja pelas ações pontuais, seja por inações, também pontuais.

Com esse retrospecto, agora parece muito é jogo de cena, ou então não conseguiu participar da sociedade brasiliense, onde os segredos são de polichinelo.





segunda-feira, 21 de agosto de 2017


JANOT DENUNCIA JUCÁ, LÍDER DO GOVERNO TEMER, NA OPERAÇÃO ZELOTES



247 - A Procuradoria Geral da República denunciou o senador Romero Jucá (PMDB-RR), líder do governo Temer, no âmbito da Operação Zelotes.

O caso corre sob segredo de Justiça, e por isso não há detalhes sobre quais crimes o senador Jucá é acusado de cometer pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot.

A Operação Zelotes apura fraudes no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), o tribunal de recursos da Receita Federal.

A segunda turma do Supremo Tribunal Federal agora irá decidir se o senador se tornará réu. O relator será o ministro Ricardo Lewandowski, que é relator da Zelotes na Corte.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Safatle não crê em eleições e cobra esquerda

Ótima a entrevista do filósofo Vladimir Safatle. Tal qual este blogueiro, ele não crê em eleições em 2018, ou ao menos em condições democráticas plenas no pleito que poderemos ter no próximo ano. Isso porque no mínimo tratarão de alijar os adversários do campo progressista com maiores probabilidades de vitória. Lula está a um voto de se tornar inelegível, e já iniciaram os ataques a Ciro Gomes. Os outros candidatos de esquerda exiatentes até o momento não trazem a mínima ameaça ao campo golpista.

Outro ponto importante é a famosa "coligação das esquerdas". Deu certo no Uruguai, em Portugal, mas eles têm discursos e propostas interessantes. Aqui qual seria a novidade? A única proposta de mudança de Lula é com relação à reregulamentação da mídia. De resto ele não dá nenhuma dica de que estaria tentado a mudar algo mais. E o que ele fez anteriormente dificilmente daria certo agora, porque os tempos sao outros, o país é outro.

Ciro tem propostas bem mais concretas e interessantes, mas não tem a mesma capacidade eleitoral de Lula, embora tenha muito mais potencial de crescimento. Mas mesmo ele precisaria ser capaz de ultrapassar o oligopólio informativo dos grandes grupos de comunicação do país, e ainda conseguir aglutinar o campo progressista em torno de seu projeto de país. Só que isso esbarra nos interesses de poder do PT.

E por último a falta de credibilidade que atinge ao campo progressista de modo geral, que não soube sair da arapuca armada pela direita, e que agora paga o preço em acreditar piamente em alianças e coalizões.

Sugerimos a leitura da entrevista dada a Carta Capital. Muito interessante.


Política

Entrevista

Safatle: “Frente de esquerda para quê?”

por Sergio Lirio — publicado 03/09/2017 00h43, última modificação01/09/2017 11h47
O filósofo da USP duvida da realização de eleições em 2018 e afirma que o campo progressista ainda não sabe o que oferecer aos brasileiros
Wanezza Soares
Vladimir Safatle
Safatle: a conciliação da Nova República chegou ao fim
Após incursões em sua área de formação, a Filosofia, Vladimir Safatle volta a se concentrar no debate político contemporâneo. O título de seu mais recente livro, “Só mais um esforço”, a ser lançado no início de setembro, é uma referência a uma famosa frase do Marquês de Sade de estímulo aos concidadãos desanimados com os rumos da Revolução Francesa. Há, portanto, no âmago da análise, uma mensagem de esperança em relação ao futuro do Brasil, erguida sobre camadas de críticas agudas aos rumos da esquerda, ao chamado lulismo e à eterna conciliação das elites.
Convidado do “Direto da Redação”, programa de entrevistas do site de CartaCapital transmitido pelo Facebook e pelo YouTube, o professor da USP explicou as teses do livro e respondeu a perguntas dos “sócios” e “sócias” da revista. Safatle duvida da realização de eleições em 2018(“quem deu o golpe não vai correr o risco de perder o poder”) e critica o campo progressista por apostar todas as fichas na incerta disputa eleitoral do próximo ano.
Frente de esquerda para quê?”, indaga a certa altura. Segundo ele, antes de pensar em uma ampla união eleitoral, as lideranças progressistas e os movimentos sociais precisam descobrir o que tem a dizer de novo aos eleitores. 
CartaCapital: Seu novo livro se chama “Só mais um esforço”. Por que escolheu esse título?
Vladimir Safatle: É uma referência a uma famosa frase do Marquês de Sade. Quando ele lançou “Filosofia da Alcova”, havia no interior do livro um panfleto que afirmava: “Franceses, só mais um esforço se quiserem ser republicanos”. Foi uma maneira de dizer aos leitores que, para estarem à altura dos processos de transformação em curso, no caso a Revolução Francesa, seria necessário um pouco mais de fôlego e compreensão. Muitas vezes esses momentos podem parecer complicados, mas tem potencialidades a serem exploradas. Achei interessante e válido de se lembrar neste nosso momento. 
CC: Por quê?
VS: Entendo a leitura melancólica atual, devido ao tipo de catástrofe que vivemos, ao fato de o Estado brasileiro ter rompido todos os vínculos com a democracia formal e de estarmos sob o domínio de uma cleptocracia. Pode estimular a sensação de beco sem saída. Insisto, porém, que essa percepção não deve ser tomada como uma verdade absoluta. Há potencialidades a serem exploradas. Existem condições para alcançarmos um outro momento da nossa história. Mas, para tanto, é preciso entender o que de fato aconteceu. Falta, a meu ver, um esforço da intelectualidade para interpretar esse momento. 
CC: No livro, o senhor se esforça para localizar o Brasil nos fenômenos mundiais. Ou seja, o que acontece aqui não seria um episódio isolado.
VS: Pretendi me contrapor a essa visão de que o Brasil é a maior ilha do mundo, como se todos os processos sociais e históricos fossem endógenos, não houvesse um articulação do País com o que se passa no resto do planeta. Acho bem provável que tenha se desenrolado aqui o último capítulo da história da esquerda do século XX. 
CC: De que maneira?
VS: A esquerda durante o século XX, em especial após a Segunda Guerra, tentou operar no interior dos sistemas de acordo da democracia liberal como uma potência de transformação paulatina, a começar pela construção do Estado de bem-estar social. De uma certa maneira, a esquerda da América Latina também atua nesses limites. No momento em que a socialdemocracia entra em colapso na Europa, seu berço, ela ganha espaço na América Latina. No Brasil, o PT não nasceu como um partido socialdemocrata, mas assim se consolidou com o passar do tempo e durante sua experiência no governo. Portanto, o fracasso recente no País não é só nosso. Representa o fracasso de um modelo da esquerda mundial, que havia se tornado hegemônico no Ocidente a partir da segunda metade do século XX. Como sempre, a América Latina entra de forma retardatária nesse processo, por conta de seus enormes déficits de democracia e participação popular. 
CC: Há condições de se criar uma frente de esquerda para disputar as próximas eleições?
VS: A consolidação das estruturas populares exige uma mudança no jogo político. A esquerda não pode imaginar que irá governar de fato em um horizonte no qual as forças hegemônicas se mobilizam para imobilizá-la. Por que a Nova República foi construída sobre o presidencialismo de coalizão? Por ter sido montada para impedir a esquerda de governar. 
CC: Se um presidente progressista for eleito em 2018, o que ele precisaria fazer de diferente?
VS: Não acredito em eleições em 2018 (risos). E há várias maneiras de se bloquear um processo minimamente democrático. Temos o exemplo da Bielorrússia, uma disputa na qual todos os “indesejáveis” são excluídos do jogo eleitoral. Acredito que esta será a primeira estratégia adotada por quem está no poder. Se não der certo, existe a possibilidade de modificar completamente o sistema eleitoral. Em resumo: implementar o parlamentarismo. No caso brasileiro, não existe pior saída. Os eleitores já recusaram o parlamentarismo duas vezes em plebiscito. O Parlamento do Brasil, todo mundo sabe, não é o da Alemanha. É uma caixa de ressonância dos piores interesses oligárquicos. Criaram um sistema casuísta para vencer em qualquer circunstância. Se ainda assim não vingar, não descarto uma guinada ainda mais autoritária. Limitar as discussões às eleições do próximo ano paralisou o campo progressista. 
"Não descarto uma guinada mais autoritária no Brasil"
CC: Como?
VS: Volto a uma pergunta anterior. Fala-se em uma frente de esquerda, mas para quê? Não está claro. O que se quer? O objetivo é retomar o que foi feito antes, com um ajuste aqui e outro ali? Ou seria fazer diferente? Mas o quê? Seria bom discutir outros questões mais elementares. O que a esquerda tem hoje a oferecer ao Brasil, a não ser resistências pontuais: dizer não a esta ou àquela reforma? Sem respostas a estes pontos, sua força de mobilização diminui substancialmente. Ninguém vai às ruas apenas para dizer não. Você mobiliza quando é capaz de levar os cidadãos a pensar em uma possibilidade que ainda não se configurou, mas é viável. 
CC: No livro, o senhor reforça suas críticas ao chamado lulismo. Pode explicar sua interpretação do fenômeno?
VS: O lulismo consolidou pela primeira vez um sistema mínimo de seguridade social no País e reconstituiu o capitalismo de Estado. Por um certo tempo, ocorreu um processo de inclusão social considerável, 42 milhões de brasileiros experimentaram essa ascensão. O problema é que havia uma data de validade. Foram vários os entraves. Faltou uma política de combate à desigualdade. Ocorreu, na verdade, uma capitalização dos pobres. Este mecanismo não reduz as diferenças e causa um paradoxo: os mais ricos continuam a ganhar muito e acabam por puxar os preços da economia para cima, encarecendo a vida nas cidades, principalmente nas metrópoles. Isso não aconteceu apenas no Brasil. Luanda, em Angola, padeceu do mesmo efeito. Não à toa, entre 2008 e 2014, o valor dos imóveis em São Paulo triplicou. A consequência é que o ganho dos mais pobres é corroído com o passar o tempo. Chega um momento no qual quem está no poder é obrigado a gerir a paralisia. 
CC: Foi o que aconteceu com Dilma Rousseff, certo?
VS: Sim. O lulismo tinha uma trava. Ele reproduziu em boa medida o populismo getulista, fundado na ideia de que governar é administrar coalizões. Não demonizo o populismo, apenas o analiso aqui. Os liberais valem-se da estratégia de trata-lo não como um conceito descritivo, mas como injúria. Associam o termo à irracionalidade. Não é o meu caso. 
CCDá para imaginar um neolulismo? O senhor acredita nessa possibilidade?
VS: Mais importante é saber se o Lula acredita. Suas participações políticas recentes não estimulam a aposta nessa hipótese. Se querem fazer o mesmo de novo, o melhor seria não insistir nesse debate sobre uma frente de esquerda. Isso demonstra a incapacidade de reorganização do campo progressista sob outras bases. É verdade que o Lula lidera todas as pesquisas. Impressiona-me, porém, que muitos estejam preocupados apenas com o horizonte eleitoral e não gastem energia para criar uma nova hegemonia a partir da força das suas ideias. Insisto: não existe 2018, não vejo a mínima possibilidade de quem deu o golpe abrir mão do poder tão facilmente. Eles não vão embora, não vão aceitar perder. O único modo de combater é consolidar um processo de mobilização. 
CC: O quanto o momento atual é fruto das manifestações de 2013?
VS: Considero 2013 a maior oportunidade perdida pela esquerda. O embate ideológico, que estava recalcado, floresceu. O campo progressista deveria estar à altura do que as ruas pediam naquele momento. 
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2013, chance perdida pela esquerda (Foto: Fernando Frazão/ABr)
CC: E o que as ruas pediam?
VS: A começar, uma transformação da experiência política. Ficou evidente a crise da representação. E não só dos partidos. A mídia, os sindicatos, as organizações foram colocados em xeque. E depois, a insatisfação diante da interrupção do processo de ascensão social. Basta lembrar do slogan: “Quero escola padrão Fifa”. Muitos daqueles que experimentaram essa ascensão tiraram os filhos da escola pública e transferiram para uma instituição privada. Durante os anos do PT, 24 milhões de alunos deixaram o sistema público. Também abriram mão do SUS e adquiriram planos de saúde. Por fim, compraram carros. Junte os três gastos. Os ganhos de renda acabaram corroídos por eles. O nível de frustração foi elevadíssimo. Em 2010, 2011, o mundo inteiro celebrava o Brasil. Seríamos a quinta maior economia do planeta, projetava-se. A Copa do Mundo prometia repaginar as nossas metrópoles. E, de repente, começou-se a perceber que nada acontecia mais. 
CC: É a pior frustração.
VS: O conceito vem do Alexis de Tocqueville. As revoluções, dizia, não são feitas pelos mais pobres, mas por quem está em ascensão e se vê frustrado pela interrupção desse processo. Por aqueles que percebem não haver mais futuro. O Brasil de 2013 assistiu à explosão desse tipo de frustração. Era uma grande oportunidade para o campo progressista abraçar essa pauta e romper com certas alianças que sempre a impediram de transformar a realidade. Mas todas as agremiações de esquerda, todas, sem exceção, demonstraram um arcaísmo inacreditável naquele momento. 
CC: A Nova República chegou ao fim?
VS: O PT foi o último fiador do modelo de conciliação da Nova República. Acreditou na perenidade de um sistema de resolução de conflitos políticos minimamente democrático. Que não haveria mais golpes de Estado. Que existia uma ala racional no PSDB. Uma visão, nota-se agora, completamente falha. Não há mais conciliação possível. Essa promessa da Nova República não pode mais se realizar. É preciso saber acionar os extremos. O conflito de classe no Brasil nunca foi assumido enquanto tal. Foram 14 anos de um governo que aplicou o programa clássico de esquerda, socialdemocrata, e nem assim foi tolerado. Não se conseguiu fazer nenhuma discussão séria sobre uma reforma tributária de verdade, para criar um sistema de impostos progressivo, que não onerasse tanto os trabalhadores e os mais pobres. Para não citar outros exemplos. 
"No mundo, a política caminhou para os extremos"
CC: A disputa política nos próximos tempos, tanto no Brasil quanto no mundo, se dará entre os extremos?
VS: O mundo tem confirmado essa hipótese de maneira incontestável. A política caminhou em direção aos extremos. O eixo de mobilização foi para as pontas. Alguém pode dizer que a França conseguiu reconstituir o centro com a eleição do Emmanuel Macron, mas foi graças ao extremo, a Marine Le Pen, que se projetava como uma sombra. O problema está no fato de a extrema-direita, atualmente, ter se tornado esse eixo mobilizador. A esquerda ainda não conseguiu se reorganizar.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Pinball Wizard - Elton Jhon

"Tommy, a Ópera Rock" é um filme bem fraquinho, na verdade é menos um filme e mais uma desculpa para o desfile de ótimas músicas. Um dos pontos altos é, sem dúvidas, Pinball Wizard, interpretado por um Elton Jhon novinho, no início da carreira, e cercado pelos integrantes do The Who.


quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Nazismo não perseguiu apenas judeus

Algo que pouca gente sabe, e que mesmo no texto abaixo não fica exatamente claro. Óbvio, que até pelo título dessa postagem, dá para perceber que o Estado Nazista não se limitou ao holocausto, mas você sabe qual foi a verdadeira motivação de Hitler e seus seguidores?

Se sua resposta for não, então entenda que isso não costuma ser divulgado por dois motivos principais. O primeiro é a quantidade de judeus mortos, que chegou a cifra dw 6 milhões de pessoas. O segundo é político, já que não há interesse no ocidente em indicar que os alvos principais do Nazismo eram xomunistas, lideranças políticas, e só depois os judeus e outras etnias consideradas inferiores ou perigosas.

 Se você não acredita, pesquise.

O que aconteceu com os negros alemães durante o nazismo

Poucos conhecem o destino da comunidade de origem africana na Alemanha após a conquista do poder por Adolf Hitler, em 1933.

Por Carlo Cauti, G1
 


Adolf Hitler e Heinrich Himmler revistam tropas das SS (Foto: Associated Press)Adolf Hitler e Heinrich Himmler revistam tropas das SS (Foto: Associated Press)
Adolf Hitler e Heinrich Himmler revistam tropas das SS (Foto: Associated Press)
Em meio à polêmica envolvendo supremacistas brancos nos Estados Unidos, após o confronto durante a manifestação em Charloteesville, na Virgínia, neste fim de semana, voltam à tona nas redes sociais discussões e interpretações históricas relacionadas a movimentos racistas -- entre eles aquele que é possivelmente o mais notório, o nazismo.
A história das perseguições nazistas contra minorias étnicas, linguísticas, religiosas e políticas, bem como outras partes da população alemã, é bem conhecida, documentada e relembrada nos livros de história do mundo inteiro. Entretanto, há uma categoria específica de vítimas cujo destino trágico foi pouco contado e muitas vezes não é incluído nos grupos perseguidos por Adolf Hitler.
É o caso dos alemães negros que viviam na Alemanha antes da tomada de poder do Führer.

Comunidades históricas

Quando Hitler chegou até a Chancelaria do Reich, em 1933, havia milhares de negros que viviam na Alemanha, embora o exato número nunca tenha sido calculado por censos. As estimativas, portanto, variam muito.
A comunidade alemã negra ainda estava se formando em 1933. Na maioria das vezes eram famílias de alemães de primeira geração, ou seja imigrantes africanos com crianças nascidas na Alemanha, mas que ainda não tinham atingido a maioridade.
Nesse sentido, a comunidade negra alemã da época era semelhante à da França e do Reino Unido – ou seja, formadas, principalmente, por famílias de homens e mulheres vindos das colônias africanas e asiáticas desses impérios.
O núcleo desta pequena comunidade era formado por um grupo de homens africanos e de suas mulheres alemãs. Essas pessoas vieram principalmente das colônias africanas pertencentes à Alemanha entre 1884, o ano de fundação do império colonial alemão, e 1919, quando Berlim, no tratado de Versalhes que decretou o fim da Primeira Guerra Mundial, perdeu todos os seus territórios ultramarinos.
Além disso, havia entre 600 e 800 crianças nascidas de relacionamentos entre mulheres alemãs e soldados das tropas coloniais francesas - constituídos, em sua maioria por africanos.
Essas unidades militares faziam parte das tropas de ocupação que Paris enviou à Renânia, uma área industrial no oeste da Alemanha, para impor o cumprimento do Tratado de Versalhes.
As tropas francesas se retiraram somente em 1930, e a região foi desmilitarizada, até que Hitler enviou tropas alemãs em 1936, violando o Tratado de Versalhes.
Esta comunidade negra alemã estava dispersa em toda a Alemanha e era ligada, em muitos casos, a associações e organizações comunistas e antirracistas.

Leis de Nuremberg

As leis raciais de Nuremberg de 1935, as chamadas "leis para a proteção do sangue e da honra alemãs" – que privaram os judeus alemães de sua nacionalidade e lhe proibiram de se casar ou de ter relações sexuais com pessoas do "sangue alemão" – também foram aplicadas à nascente comunidade negra na Alemanha.
Essas pessoas foram, de fato, consideradas de "sangue estrangeiro" e sujeitas às leis de Nuremberg.
A partir desse momento, apesar de os negros alemães terem nascido na Alemanha e serem filhos de cidadãos alemães, a concessão de cidadania a essas pessoas tornou-se impossível. Os nazistas chegaram a lhe entregar passaportes, chamando-os de "negros apátridas", negros sem pátria.
Isso deixou impossível para eles achar um emprego formal. Alguns foram usados como trabalhadores forçados e classificados como "trabalhadores estrangeiros" durante a Segunda Guerra Mundial.
Outros foram usados como figurantes e atores de filmes de propaganda nazista sobre as colônias africanas perdidas pela Alemanha. Estes tipos de empregos tornaram-se uma das poucas fontes de renda disponíveis para essas pessoas.
Em 1941, as crianças negras foram oficialmente excluídas das escolas públicas de toda a Alemanha, mas a maioria sofreu abusos raciais em suas salas de aula muito antes disso. Alguns foram forçados a sair da escola e nenhum foi autorizado a cursar universidades ou escolas profissionais.
Entrevistas e memórias escritas por homens e mulheres negros alemães, assim como reivindicações de compensações econômicas apresentadas depois do fim da Segunda Guerra Mundial, testemunham essas experiências compartilhadas por muitos negros alemães.
Livros como "Black Germany – The Making and Unmaking of a Diaspora Community, 1884–1960" (Alemanhã negra – A criação e a destruição de uma comunidade da diáspora, 1884-1960, sem tradução para o português), dos professores Robbie Aitken, da Universidade Sheffield Hallam, e Eve Rosenhaft, da Universidade de Liverpool, contam essa história.

Nazistas preocupados

O medo nazista do risco de "poluição racial" levou a um dos principais crimes cometidos por Hitler contra esta comunidade: a esterilização.
Os casais chamados "mistos" foram obrigados a se separar. Quando uma mulher alemã branca solicitava uma licença-maternidade ou ficava grávida de um alemão nascido na África, o parceiro era imediatamente forçado à esterilização.
Em 1937, uma operação secreta nazista foi além: cerca de 400 crianças negras da Renânia foram esterilizadas contra a vontade de seus pais. Por causa dessas perseguições, muitos negros fugiram da Alemanha.
Entretanto, poucos alemães de origem africana foram realmente internados em campos de concentração. De acordo com as últimas pesquisas históricas, não mais de 20 membros da comunidade negra alemã foram levados por nazistas e uma pessoa morreu no programa de extermínio de pessoas com desabilidades, dentro do programa que os nazistas chamaram de “Aktion T4”.
O único alemão negro que foi enviado para um campo de concentração, não por razões políticas, foi Gert Schramm, internado em Buchenwald por causa da cor de sua pele aos 15 anos, em 1944. Ele escreveu um livro "Ein schwarzer Deutscher erzählt sein Leben" ("Um alemão negro conta de sua vida", sem tradução em portugês), relatando sua experiência dramática.
A maioria dos alemães negros foi preso por razões políticas ou pelo chamado “comportamento antissocial”, como a homossexualidade.
De acordo com os nazistas, a própria cor da pele identificava uma pessoa pertencente a esta comunidade como um sujeito "diferente" dos outros alemães. Por isso, uma vez presas, essas pessoas não eram mais liberadas.
Um comportamento que mostra como, mais do que vítimas de uma perseguição nazista, a comunidade negra alemã foi perseguida pelo racismo espalhado nas sociedades europeias da época.