terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Bolsonaro, a farsa ambulante

Vejam bem, nada pessoal contra Bolsonaro. Ciro Gomes diz que essa figura polêmica do Deputado Federal é fachada, um personagem, que Bolsonaro se especializa ano a ano em interpretar. O problema é que o personagem parece estar se fundindo com o intérprete. Tal qual aqueles atores pouco talentosos de séries americanas, que passa anos interpretando o mesmo papel, e quando faz outro trabalho muda apenas o nome do personagem, mas os trejeitos, olhares, modo de falar, é tudo igual.

Nessa tônica o paulista radicado no Rio vem se especializando em frases feitas, de efeito restrito, mas que diferente do artigo de Celso Rocha de Barros, não atinge apenas os garotos do vídeo game, mas a toda uma gama de classe média, e até mesmo de pessoas de menor poder aquisitivo, que não suportam mais a violência e a impunidade de corruptos e corruptores.

Claro que essas pessoas não apoiam Bolsonaro apenas por esses problemas. Também há dois fatores importantes que influenciam decisivamente nesse apoio. O primeiro é a falta de uma análise mais profunda de Bolsonaro, já que se detêm em seu discurso raso, e não prestam a menor atenção a suas atitudes. 

O outro ponto é que a figura Bolsonaro foi incentivada por uma imprensa irresponsável, já que seus discursos frequentemente insuflam o ódio, e isso foi necessário no momento de aplicar o golpe no Parlamento. Mas esse momento passou, e Bolsonaro começa a incomodar. Isso não se reflete no texto abaixo, já que esse tipo de análise sobre o Deputado é feita já há algum tempo, mas nas matérias da grande imprensa, que tem tentado ligar a família de parlamentares a atos de corrupção. Todos menores, e sempre de comprovação difícil.

Nesse sentido Reinaldo Azevedo chegou a fazer uma análise rasa de salários recebidos pela família, com o valor de imóveis de sua propriedade. Isso não é uma relação direta. Após a posse de Lula, o Brasil passou ao menos uma década com uma impressionante valorização dos imóveis, que superaram em muito a inflação.

E no fundo todo mundo acaba errando o alvo. Bolsonaro é totalmente despreparado para o cargo que almeja, e essa é a questão. Não se governa um país com frases feitas e destilando ódio, isso serve apenas para liderar um nicho eleitoral, mesmo que esse nicho esteja inchado pela atual situação do país.

A propósito, essa situação foi criada exatamente por essa imprensa, que agora, tenta imputar ao Deputado a pecha de corrupto. Ele já não serve mais.

O povo? Para eles, esse não vem ao caso. Para Bolsonaro também não.








CELSO ROCHA DE BARROS

Os liberais estão corretos em se recusar a fazer companhia a Bolsonaro

08/01/2018 02h00

Fabio Rodrigues Pozzebom

"Vou tirar janeiro para estudar, rascunhar, aprender. Às vezes tenho dificuldade em assimilar a carga enorme de informação que me chega. É como se estivesse na faculdade."
Bolsonaro arrumou um partido. É o PSL, Partido Social Liberal. Até então, o candidato da molecada que se acha macho alfa porque joga muito videogame de tiro estava negociando com outros partidos do baixíssimo clero da política brasileira: PSC, Patriota, e o PR de Valdemar Costa Neto. Isso, aquele Valdemar Costa Neto. Esse mesmo.
A afinidade é natural: Bolsonaro é baixo clero puro-sangue. Nunca teve qualquer relevância parlamentar, nunca participou de um único debate relevante, nunca aprovou um projeto de lei que valesse nada. Quando o PSDB derrotou a hiperinflação, Bolsonaro queria fuzilar FHC. Quando o PT tirou milhões de brasileiros da miséria, Bolsonaro estava decidindo qual das ministras petistas merecia ser estuprada.
PATRIMÔNIO MULTIPLICADO
Bolsonaro se encostou no salário de deputado faz 30 anos, enfiou seus filhos na mesma carreira e é realmente a cara do PSC, do Patriota, de Valdemar Costa Neto. Bolsonaro é um Severino Cavalcanti que só teria coragem de brigar com Gabeira se alguém já tivesse amarrado o ex-guerrilheiro no pau-de-arara.
O PSL já foi baixíssimo clero como os outros desta lista, mas vinha tentando se reabilitar. Um pequeno grupo liberal, o "Livres", entrou em massa no PSL, conquistou diversos diretórios e vinha tentando dar ao partido a cara de um partido claramente liberal. Era uma boa ideia: seria ótimo se o liberalismo se apresentasse nas eleições brasileiras para o debate aberto.
Mas o Livres foi traído pelo presidente do PSL, Luciano Bivar, que todo mundo achava que era só mais uma mediocridade produzida pelo baixo clero da política brasileira e, vejam só, era mesmo, estava todo mundo certo, parabéns para todo mundo.
Ao que parece, Bivar entregou o partido para Bolsonaro em troca do lugar de vice na chapa. É isso aí, Bolsonaro, candidato a vice tem que ser assim, leal, sujeito homem que cumpre acordo. Tenho certeza de que será um sucesso, você sabe que eu só quero o seu bem.
Diante dessa traição bastante vira-lata por parte do PSL, os membros do Livres saíram do partido, no que demonstraram consistência ideológica e noções básicas de higiene.
Estão corretíssimos os liberais que se recusaram a fazer companhia ao lambe-Ustra: ou o sujeito é liberal, ou apoia Bolsonaro. Afinal, liberalismo econômico qualquer sujeito afim de puxar o saco de rico defende. O teste do liberal sincero é a defesa do liberalismo político, das liberdades individuais, da democracia. E o liberalismo político implica a defesa dos direitos humanos. Foi o velho John Locke que mais ou menos inventou as duas coisas, afinal. Procurem os depoimentos de Bolsonaro sobre direitos humanos e calculem o que ele faria se pudesse colocar as mãos em John Locke. Depois de alguma outra pessoa ter amarrado o Locke no pau-de-arara, claro.
O sujeito defender desregulamentação de empresa de rico (mesmo quando isso é uma boa ideia) só quer dizer que ele quer ser convidado para as festas certas. O que o Locke quer saber é se o sujeito defende que a polícia não pode entrar em barraco de favela sem o mesmo mandado que precisa mostrar em bairro de classe média. E o Locke defendia o direito à insurreição, de modo que, se eu fosse vocês, não provocaria o sujeito, não. Liberalismo político é coisa séria. Bolsonaro: nunca será.
Ranier Bragon/Folhapress

Prédio na Tijuca onde o vereador Carlos Bolsonaro tem um de seus apartamentos




celso rocha de barros
É doutor em sociologia pela Universidade de Oxford, com tese sobre as desigualdades sociais após o colapso de regimes socialistas no Leste Europeu. É analista do Banco Central. Escreve às segundas.

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