Pois é pessoal, antes de tudo quero explicar que estive um pouco
ausente por dois motivos principais. O primeiro é excesso de
trabalho, já que estamos em alta temporada para minha atividade
atual, e o trabalho aumenta enormemente nesse período. O Outro
motivo é uma crise de coluna, que tem incomodado bastante, mas já
está sendo controlada.
Dito isso, começamos
precisamente por lembrar que o BRICS é, acima de tudo, um grupo de
países que busca fugir das interdições político-econômicas
impostas pelos países Ocidentais vencedores da 2ª Guerra Mundial, e
que controlam rotas comerciais, empréstimos, regras de comércio e
produção, além de financiamento e condições de desenvolvimento,
dizendo o que cada um pode e deve fazer. Esse controle é usado para
controlar não apenas economicamente, mas também politicamente os
países que tentam se contrapor a tais controles. Nem sempre deu
certo, mas indiscutivelmente tal controle tem trazido instabilidade
ao planeta, principalmente aos países menos desenvolvidos.
Justamente o que esses países do BRICS buscam são alternativas que
permitam se desenvolverem e comerciarem seus produtos sem essas
interdições. Não é um processo fácil, não é um processo
rápido, e ainda vemos as reações do grupo de países que vê sua
hegemonia e controle ameaçados, que buscam minar e impedir a
concretização dessas iniciativas de todas as formas, inclusive
bélicas.
Nesse contexto o
Brasil recebeu a XVII cúpula dos BRICS, que teve a presença de
duas dezenas de países, sendo 11 membros plenos, 10 parceiros. Os
países são bastante heterogênios, mas a busca por outras formas de
comércio e desenvolvimento os unem no momento. Destaco a presença
de Cuba, que como membro parceiro tem uma enorme oportunidade para
escapar às sanções que são impostas pelo EUA há décadas, e que
vêm limitando enormemente a capacidade de desenvolvimento da Ilha.
Sobre a cúpula em
si temos que destacar duas coisas principais. A primeira são os
trabalhos e as reuniões de especialistas, políticos responsáveis
por determinadas áreas e empresários, que concluem negócios, o
desenvolvimento de ideias, discutem novas diretrizes, oportunidades,
etc. Essas reuniões muitas vezes se desenvolvem por meses, com
discussões, estudos e a elaboração de projetos.
O segundo destaque é
a declaração final. Como eu disse acima, o BRICS é, antes de tudo,
um bloco de fomento de negócios, mas aos poucos está se tornando
mais que geoeconômico, mas geopolítico, como a declaração final
do evento deixa bastante claro.
Sobre a parte
econômica o grande avanço veio da Rússia, com proposta de avanços
sobre novas formas de pagamento. Já na parte de negócios houve
vários avanços, e o Brasil se beneficiou bastante. Foi alinhavada
visita à Índia para o desenvolvimento de um plano estratégico
bilateral. Devem entrar em negociação trocas tecnológicas e
comerciais em si, além de aproximação dos países em outras áreas
também.
O Brasil também foi
convidado a participar da próxima reunião da ASEAN (Associação de
Nações do Sudeste Asiático), composta por pesos pesados da Ásia,
como China, Vietnam, etc. Muitas outras oportunidades de negócios
podem se abrir para o Brasil nesta reunião, e no desenvolvimento das
relações com a Índia. Neste ponto o encontro dos BRICS me pareceu
um sucesso, mas acho que faltaram mais propostas, mais avanços
institucionais para facilitar o comércio entre os países membros,
ainda que tenhamos tido várias bilaterais entre os membros, e
aproximações entre eles são esperadas.
Essa falta de avanço
me pareceu proposital, porque o Brasil optou por transformar parte
substancial do encontro num pré-Cop30, reunião que o próprio
Brasil sediará no final do ano em Belém, e que versará sobre
meio-ambiente e mudanças climáticas. Na verdade estes temas são
muito mais do interesse do Ocidente político do que de países dos
BRICS. Basta lembrar que China e Rússia se preparam para abrir uma
rota comercial pelo Ártico, que só é possível justamente pelo
degelo causado pelo aquecimento global. E o Ocidente está pronto a
disputar o domínio desta rota com estes países do BRICS.
Nitidamente há conflito de interesses aqui, sem julgamento de quem
está certo ou errado. As rotas comerciais do Ártico são um caso,
mas há outros.
Por outro lado há
um outro ponto importantíssimo neste tipo de evento, e é sua
declaração final. Nessa declaração costumam vir informações que
indicam qual o caminho que o grupo quer seguir, quais suas
prioridades, atenções, interesses, aspirações, etc. No caso da
cúpula que se encerrou a declaração final foi extremamente
abrangente. O documento teve um total de 126 itens, que incluíram
desde os temas geo-econômicos, que são o objetivo primário dos
BRICS, passando por temas sociais, novas tecnologias com destaque
para o uso de IA´s e o espaço sideral, temas humanitários,
ecologia, mineração, e o fato de que o grupo fatalmente irá
enveredar para a geopolítica, porque temas como respeito à carta e
a determinações da ONU, reformas em sua estrutura, condenações a
atos de guerra específicos, assim como de ações terroristas, o
chamamento à paz e ao respeito à soberania do povos de vários
países e regiões do mundo, e também quanto ao uso de novas
tecnologias e fronteiras tecnológicas com objetivos de
desenvolvimento do bem-estar da humanidade e contra seu uso militar,
tudo isso indica que a cada reunião o grupo BRICS se vê mais
pressionado pelos acontecimentos a abraçar temas geopolíticos. E
digo a cada reunião, porque não é a primeira vez que temas
geopolíticos são incluídos na declaração final, mas é a
primeira vez que eles aparecem de forma tão ampla, profunda e
detalhada.
Mas se tivemos
coisas boas, também tivemos as péssimas. O próprio Presidente Lula
veio com a ideia estúpida de incluir os países do G7 no BRICS, como
se esses países não estivessem utilizando de todos os meios,
inclusive militares, para minar e impedir a consolidação desse
bloco geoeconômico. De minha parte eu realmente não sei se Lula
trás essas ideias estúpidas porque está senil, porque não entende
o que está acontecendo, porque é coagido a isso, ou porque ele sabe
que uma besteira dessas jamais seria aprovada pelos membros do Bloco,
e com isso pode parecer bom para o outro lado também.
Mas seja qual for o
motivo isso pega mal, e ainda por cima não ajuda Lula a ter uma
relação melhor com o Ocidente, tanto é que no último dia da
cúpula ele recebeu de presente de Trump a aplicação de 50% de
taxas de importação para produtos brasileiros exportados ao EUA,
além de nítida interferência em assuntos internos ao exigir uma
“anistia” ao pessoal do 08 de janeiro, o fim do processo contra
Bolsonaro e os seus, e a não interferência nas Big Techs
estadunidenses que operam no Brasil. Mas isso é tema para outro
vídeo.
Por esses motivos
não me pareceu que a reunião de Cúpula dos BRICS tenha sido esse
sucesso todo que a imprensa ligada ao PT grita, mas também não foi
o desastre que se esperava por ter tido pouco preparo. Atingiu
objetivos geoeconômicos, e até alguns geopolíticos, mas teve
algumas escorregadelas, principalmente vindas da própria liderança
brasileira. Se não foi o desastre que a maioria dos analistas
geopolíticos esperava, também não foi o sucesso que poderia ter
sido, e ainda foi aberto mais um setor de conflito direto com o EUA.